NHANDETCHY KUERY (NOSSAS MÃES)


Embora o povo Guarani, tenha uma origem comum e, consequentemente, narrativas comuns, dentro desta etnia existem diferentes subgrupos (Nhandeva, Mbya, Pain, Tchiripá, kaiowá,...) que se relacionam, formam aldeias e seguem formando novas realidades. Em cada aldeia formada, as narrativas interagem e permanecem sendo contadas de forma oral. Os ensinamentos e a história Guarani são passados de geração para geração.


Narrativas sobre a origem da mulher dentro desta etnia, parece que não é tão fácil encontrar, mas diversas divindades femininas sempre estão vivas no cotidiano das aldeias.

O entendimento é de que estas divindades não são separadas. É quase impossível contar a história de uma delas, sem conectar com a caminhada de várias outras. Elas formam uma unidade, que é o Feminino, íntegro. Toda mulher, carrega dentro de si, os aspectos de todas as deusas. Alguns se destacam mais, outros menos. Cada nome, ganho no batismo, traz a conexão com uma linhagem e potencializa os dons que aquela mulher tem para ser tecido durante sua vida.


Assim nos conta DJATCHUKÁ (Celita Antunes), liderança feminina, conhecedora das ervas e da sabedoria Guarani, moradora da aldeia Yynn Moroti Wherá – Biguaçú/SC.

Em 2020, depois de atender a várias encomendas de bonecas que trabalhavam a ancestralidade indígena de mulheres não indígenas, recebi um pedido para fazer bonecas de algumas deusas Gregas e Romanas. A tarefa era linda, pois as bonecas seriam parceiras de trabalho de duas terapeutas, na cura de mulheres e do seu Feminino.


Foi especial, pois voltei ao passado e relembrei um dos momentos mais fortes de minha vida, pós uma separação. Ali conheci as deusas e aprendi muito com elas. E, então, em 2020 pude aprofundar, ampliar e compartilhar meus aprendizados, através das bonecas, com suas simbologias, cores e formas.


Desde 2018 eu já tinha um chamado interno para conhecer e incentivar o feitio de bonecas Guarani, da aldeia Yynn Moroti Wherá – Biguaçu/SC. Sempre recebi apoio para criar bonecas com o artesanato desenvolvido por eles; mas quando mostrei as deusas gregas para a Celita, ela entendeu a minha vontade:


· Fortalecer o repasse da sabedoria ancestral Guarani, dentro e fora das aldeias. Pois nas narrativas Guarani, o Feminino não é compartimentado e a relação com todas as formas de vida (Natureza) é saudável e respeitosa.

· Auxiliar na cura do nosso Feminino (de homens e mulheres), acolhendo nossa ancestralidade genética (avós indígenas) e anímica (Mãe Natureza), honrando nossa origem brasileira.


A grande maioria dos brasileiros e brasileiras, tem em seu DNA, a raça indígena; mas infelizmente não sabemos disto, não respeitamos essa história. Continuamos falando que “em nosso sangue, somos europeus”. Esquecemos que muitas de nossas tataravós e bisavós foram raptadas das aldeias e violentadas, deixando dentro de cada um de nós, muito o que curar nessa relação com o Feminino. Além disto, se entendemos a Natureza como Mãe, precisamos olhar para a violência sofrida com a chegada dos não - indígenas nestas terras. Toda a forma equilibrada da relação homem-natureza-sagrado sofreu uma ruptura e com ela nossa relação interna de amor, do potencial Feminino, também.

Respeitando as orientações dela, as intuições dos artesãos e o meu chamado interno, criamos o primeiro grupo de bonecas de pano, reverenciando algumas deusas Guarani (o trabalha continuará, enquanto cada divindade queira ser relembrada desta forma). Na verdade, deusas é um termo muito djuruá (não indígena). Segundo a Celita, o termo mais correto é NHANDETCHY KUERY (Nossas Mães). E eu amei esta expressão, porque nos fala da essência do Feminino!


As primeiras 8 Nhandetchy Kuery que se apresentaram, foram: Araretê, Ijapy, Djatchy, Poty Djá, Kõe Mbidja, Takuá, Nhandetchy e Djatchuká.


Tudo foi acontecendo de forma mais livre e orgânica. Conforme Celita ia trazendo a narrativa de uma Divindade, bonecas iam se apresentando em meu pensamento, enquanto grafismo, cores e formas iam pipocando no trabalho das artesãs. As inspirações chegam para quem está conectado e assim muitas memórias orais e visuais vão sendo trazidas de volta, com mais clareza!


As bonecas não se apresentam dentro de um estereótipo “indígena”, porque aprendi com os amigos da aldeia, que eles não gostam disto. Fico livre para deixar a intuição mergulhar num mundo lúdico e colorido!

Celita nos orienta, explicando as interações entre cada Ser e a sabedoria que cada um deles carrega. O mundo onde este trabalho se sustenta vibracionalmente, é tão rico e povoado que temos a impressão de que há uma enorme turma de seres querendo se apresentar a nós.


Então, seguimos mostrando, aos poucos, suas narrativas e simbolismos.


@tihu_bonecasdepano

@yvypotyguarani

@celita_djatchuka



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