Acabo de chegar do III Encontro Sul-americano de Educação Patrimonial e Seminário Nacional de Educação Escolar Indígena. Ao mesmo tempo que foi maravilhoso estar lá aprendendo com historiadores, indígenas, arqueólogos e professores, me deparei, também,  com a falta de entendimento que temos em relação às culturas originais brasileiras, onde estão ancoradas nossas raízes.

Concordo totalmente com Cristine Takuá– representante Guarani, formada em Filosofia, professora de educação indígena em sua aldeia – quando ela fala que não vê um futuro bom para o Brasil enquanto o brasileiro não índio não reconhecer e respeitar os povos indígenas do nosso país. Acredito que somente daremos um salto social e pessoal quando honrarmos nossas origens e os povos que cuidaram e cuidam desse lugar que nos abriga.

Nossas raízes indígenas

Segundo historiadores e arqueólogos, o povo Guarani surgiu há pelo menos 4 mil anos, enquanto que a “descoberta” (termo, no mínimo, vergonhoso, porque ignora toda a história de pelo menos 3,5 mil anos, considerando apenas o povo Guarani) de nosso país pelos portugueses ocorreu há apenas 514 anos.

Realmente, é inconcebível que nos esqueçamos disso! Não temos mais tempo para ignorar nossa verdadeira origem e de que esse povo tradicional tem todos os direitos de um cidadão brasileiro – inclusive de território – e de cultuar suas crenças e sabedorias com liberdade! Mais do que isso: é hora de equilibrarmos a importação com a valorização de coisas mais do que essenciais. Não somos desprovidos de riqueza cultural, de sabedoria profunda, de beleza natural e de conexão com o sagrado. Os povos indígenas do Brasil nada devem a ninguém, pelo contrário. Quanto mais estudo diferentes tradições, mais valorizo nossas raízes.

Aprendi com Cristine Takuá que, atualmente, existem 180 povos indígenas no Brasil e que temos 200 línguas faladas. Querem maior diversidade cultural? Cada povo com suas crenças e histórias, todas muito ricas, navegando num mundo simbólico da mais alta qualidade. Além de conhecer toda esta riqueza das tradições ancestrais, mantidas pela transmissão oral, os indígenas também estudam o português, aprendem a conviver conosco e com nosso doido mundo! Apesar de terem a sua sabedoria praticamente ignorada, suas terras sendo ocupadas conforme interesses dos governos do momento, eles ainda cuidam das áreas que ocupam e tentam nos ensinar o que sabem sobre a relação do homem com a mãe natureza!

Senti vergonha quando Carlos Papa Mirim precisou explicar que não tem essa de índio e não índio, que ele queria que entendêssemos que somos pessoas, todos nós. A diferença é que assim como temos o povo nordestino, o gaúcho, o mineiro, temos também 180 povos a mais. Temos o Guarani, o Kraô, o Kariri Xocó, Xokleng, Kaingang… Tão simples e óbvio!

Infelizmente, a história foi muito deturpada e aprendemos pouca coisa sobre a verdade dos nossos povos ancestrais, que foram quase totalmente dizimados por civilizações que aqui chegaram e quiseram se impor. Não tivemos escolha de aprender diferente porque as instituições de ensino e os livros só ensinavam essas besteiras. Hoje começa uma mudança, já que as escolas podem e devem ensinar a tradição indígena de forma mais verdadeira.  O problema é que quase não temos professores que conheçam este tema com profundidade. Estamos engatinhando.

Uma mudança urgente e necessária

Olhando para toda esta situação, sinto que o início do caminho tem de ser dentro de cada um, tem de ser o do ser humano respeitando o outro ser humano, independentemente de sua cor, sexo, religiosidade, escolaridade, crença. Por trás desta urgente harmonia e respeito está o amor.

Ainda no mesmo evento, acolhi a fala de Nanblá Gakran (Xokleng) sobre a importância das histórias que o povo indígena conta, relatos sobre um tempo vivido, que foi real e experienciado pelos seres humanos em algum momento da nossa existência. Embalada por esse aprendizado, transcrevo um parágrafo do novo livro de Kaká Werá Jecupé (inspirado na cosmovisão Guarani), A Criação do Mundo, a Voz do Trovão, da  Edições Arapoty:

“Então ela vai à floresta, pega uma semente de cada árvore, põe em uma cabaça, fecha com um pedaço de pau e faz a primeira maraca. Cunhã-taí  chacoalha e canta vários sons e as sementes viram crianças. Essas sementes viram crianças. Essas sementes eram de quatro cores: vermelhas, amarelas, negras e brancas. Algumas eram de frutos da terra, outras foram trazidas pelos ventos; algumas ainda tinham o poder do fogo dentro de si e outras o poder das águas.

Quatro povos se formaram. Todos nascidos das sementes da natureza, como parte da mesma tribo, a nação humana. Nhanderuvuçú e Cunhã-taí ensinaram a eles a sabedoria da Terra e do Céu, enquanto iam crescendo e povoando o mundo.”

Nos últimos nove anos, conheci alguns indígenas de etnias diferentes: Tukano, Kariri Xocó, Tapuia, Guarani, Xokleng. Vi, em todos eles, muito respeito pelo outro, pelo que é diferente, porque entendem que somos todos um só. Foram contatos rápidos, mas sempre cheios de aprendizado. Agora,se você mora aqui no Sul e Sudeste do Brasil e ainda não foi tocado pelo olhar carinhoso de um Guarani, eu sugiro que preste mais atenção. É um povo de fala mansa, que toca nossa alma com sua docilidade, com suas canções simples e sons sagrados, e que traz uma profunda sabedoria em sua cosmovisão!

Abra os olhos e desperte para a riqueza que somos, porque sempre trazemos em nós nossa ancestralidade*! Não negue as raízes que nos sustentam e saiba que sem elas não iremos a lugar algum! É o respeito a elas que nos leva de volta ao centro, que nos torna seres iluminados, cheios de contentamento e puro amor!

Gratidão a esses guerreiros, que podiam estar em paz dentro de suas casas e ocas, com suas famílias, no entanto, escolheram estar dentro de uma universidade, longe de casa, para falar sobre o óbvio, mas pouco compreendido por nós, buscando um diálogo claro e respeitoso!


*No livro de Alberto Mussa, Meu destino é ser onça, da editora Record, o autor explica porque, estatisticamente há indícios de que 100% dos brasileiros tem ancestrais indígenas, embora muitos não apresentem as marcas genéticas (DNA).


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